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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Jodis - Secret House

Uma casa envolta em mistérioAdicionar vídeo
Existem pessoas que por mais que as tentemos imaginar noutra profissão ou a fazer outra coisa dentro do próprio ramo nos obrigam amiúde, a encarar a realidade e voltar à estaca zero. Aaron Turner nasceu para fazer isto. Como se já não bastasse ter criado um dos mais inovadores e bastardos projectos que o metal recente viu nascer (Isis) e de, ainda este ano, ter contribuído para a consolidação dos supergrupos na cena underground norte-americana (Greymachine), este predestinado volta a fazer-se reunir por mais dois exímios executantes ex-Khanate, para desbravar uma floresta de emoções num ambiente criativo que, arrisco dizer, é de uma singularidade estrondosa no seio da música experimental.

Acompanhado do guitarrista/produtor James Plotkin (Khanate, Khlyst, Phantomsmasher, O.L.D.) e do baterista Tim Wyskida (Khanate, Blind Idiot God), estes Jodis estiveram rodeados de uma intensa aura de obscuridade e surpresa já lá corriam dois anos quando foram baptizados precipitadamente de Vessel. Impaciências à parte, gravitam aqui as óbvias referências individuais de uns Isis mais actuais ou dos Khanate mais atmosféricos sem deixar que se substituam por um «Secret House» que impõe um certo minimalismo envolto em momentos vazios e catárticos. O silêncio é aqui tão importante como a ressonância sonora vinda da enigmática guitarra de Turner intercalada com o discreto, mas relevantíssimo desempenho de Wyskida que raramente faz uso da segunda linha da bateria para se dedicar ao preenchimento rítmico do álbum. Numa produção monolítica e ambiental, o resultado roça a genialidade reclamando para si a pertinência de um título feliz, já que por mais audições feitas nunca iremos saber por onde evoca tal casa, tão distante e misteriosa como a bruma cerrada desta música.

É um disco egoísta, egocêntrico, difícil e improvável de partilhar que suplica atenção em todas as faixas e nos transporta para a reclusão de um quarto escuro numa noite chuvosa. Egoísta porque nada aqui é atribuído de “mão beijada”. Egocêntrico porque não a conseguimos reproduzir fidedignamente em nós próprios. É algo que se esquiva do próprio controlo dos progenitores. É insuportável a insegurança crónica premente naqueles seis minutos da «Ascent», manipulados pelos acordes hipnotizantes e desoladores de Turner que, reafirmo, pode ter feito aqui um trabalho que o imortalizará no que a musica avantgard diz respeito. «Continents» arrasta as texturas introduzidas pela faixa inicial, exortando a magnitude da «secret house» que ouvimos de longe com Turner a vociferar a sua chegada. Até ao fim – a que o ouvinte se vai abstraindo a pouco e pouco – o trabalho enche-se de um vazio de tudo, de camadas sobrepostas, de texturas infinitas e espirituais.

Jodis não é uma simples banda, tal como «Secret House» não é só mais um disco. Não ganha vida, pois não sei se é “vida” o que encontramos aqui dentro. Agora decididamente, não é recomendado a pessoas distraídas e frívolas.

(Hydra Head, 2009)

(9.4)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Baroness - Blue Record

EVOLUÇÃO CROMÁTICA


A primeira pergunta que se põe depois da audição deste «Blue Record» e que poderá para muitos ser anacrónica, é a seguinte: Será que os sacrossantos pilares da música estarão a ruir perante uma maior atracção por uma amálgama artística de contornos inovadores. Por outras palavras, o “híbrido” estará a ganhar a guerra ao arqui-rival “puritano”?

Esperava-se com ansiedade o segundo registo destes Norte-Americanos muito por culpa do excelente «Red Álbum». Fruto dos rasgados elogios ao trabalho de estreia que chegou mesmo a ser considerado como álbum do ano para a influente revista “Revolver”, os Baroness confirmam aqui o glorioso momento de um metal moderno que deliberadamente se tende a afastar do cliché metalcore que vêm dominando a cena. Considerados pela sua editora Relapse, como a "next big thing”da facção pós-metaleira o que podemos esperar deste segundo longa-duração é uma evolução pintada a tons de azul que reclama um trabalho mais compacto e maduro recheado de coros empolgantes, variações electro-acústicas e sinergias de um movimento cada vez mais inculcado na fusão de géneros musicais.

Os Baroness aproveitaram a matriz musical que os elevou a um patamar singular da música pesada e desenvolvem-no em mais um trabalho de inegável qualidade, gizado neste «Blue Record». Ao longo destes doze temas a sincronia entre peso e melodia funciona na perfeição, denotando um alinhamento irrepreensível entre explosões sonoras como «Jake Leg» e interlúdios geniais com «Steel that Sleeps the Eye» que pressupõe uma maior identificação a um álbum conceptual pela substância e não pela forma. No complemento visual os Baroness voltam a marcar a sua força estética com um dos melhores artworks do ano, como se não bastasse já terem feito um dos melhores álbuns de 2009. E nesse aspecto John Baizley não é só um portento das seis cordas ou um furioso lead singer como um designer de excelência com reconhecidas capas para Darkest Hour, Pig Destroyer ou os “amigos” Torche. Um original para comer com os olhos, portanto.

Depois da troca de guitarristas e da pressão acrescida, os Baroness provam que são um nome a ter em conta nos escaparates do metal instrumental de influência “neurosiana” ao lado de uns Mastodon, Torche ou Minsk. Com mais esta prova de vivacidade e já depois do anunciado final dos suecos Burst, o caminho estará livre para estes nativos da Geórgia carregarem orgulhosamente a bandeira do post-metal. Para onde nos poderá levar este efervescente cocktail sonoro depois de mais uma obra de arte dos conterrâneos Kylesa – o «Static Tensions» que funcionou como rampa de lançamento para um conjunto de discos de nível superior - não sabemos. A verdade é que «Blue Record» não é só um óptimo álbum. É um testemunho essencial para se perceber que caminho o Heavy Metal está a tomar neste novo milénio. E verificando esse rumo por cada audição tomada, isso deixa-nos no mínimo felizes.

(Relapse Records, 2009)

(9.2)